terça-feira, 21 de julho de 2009

Arriflex IIC



Acabei de reassistir a O Último Imperador, do Bertolucci, fotografia do Storaro, filme incrível, uma soundtrack de chorar e tudo mais... E eis que tive a idéia para este post, porque vez ou outra via aqui e ali, no filme, um cinegrafista operando uma Arriflex 35mm (uma espécie de câmera de cinema): filmava um desfile da tropa de Mao Tsé-Tung, um encontro de imperadores, enfim, situações históricas. E essa câmera é praticamente a mesma que usei para rodar "Light My Fire", cedida pelo CTAv. Saí para pesquisar um pouco mais sobre ela, porque já estava um pouco emocionada, talvez menos emocionada que consciente de uma conjuntura sócio-político-cultural.

Explico: não sei exatamente como a ARRI IIC chegou no CTAv, mas sei que foi uma doação do "primeiro mundo", já que a dita cuja câmera, apesar de ótima, é muito antiga e ultrapassada tecnologicamente... e tudo o que vem junto a ela, como o tripé, as lentes, e outros acessório. O que quer dizer que a dita cuja câmera já aguentou muito tranco, passou por muitas situações, gravou coisa prá caralho, está muito bem conservada e tem cheiro de história.

O que já sabia é que não só as câmeras 16mm, por serem leves, foram usadas na documentação de fatos históricos e pelas avant-gardes, como também os primeiros modelos da Arriflex 35mm. A câmera surgiu em 1917, em Munique, e o nome ARRI é uma derivação dos nomes dos criadores, Arnold & Ritcher. Em 1937, numa feira de lançamentos tecnológicos em Leipzig, terra de meu amado bruder Lukas, ela ficou conhecida por ser uma câmera altamente manuseável, portátil, muito diferente das grandes câmeras utilizadas nos estúdios de cinema e tralalá... E aí, é claro, ela acabou registrando a ascensão e queda de Hitler, a morte de Mussolini e mais um série de atrocidades e desastres bélicos. E grande parte do que se vê de documentação da Segunda Guerra, foi registrada pela ARRI 35 II... Inclusive a fábrica Arriflex de Munique foi bombardeada durante a guerra, sendo reerguida em 1946, com o lançamento de um novo modelo. E foi através da força aérea americana que a câmera chegou em Hollywood... E, acredito eu, soldados russos talvez tenham conseguido alguns exemplares também, ao chegarem em Berlim... O que é certo é que o russos já estavam filmando nas ruas fazia uma cara, com que câmera eu ainda hei de saber. E o que é certo, também, e que consegui encontrar em pesquisas, é que o governo da China Comunista começou a produzir modelos idênticos aos da ARRI 35 II, o que se deu em Nanking; e que a BBC e o Bertolucci usavam a 35 II também... e que, em 1971, depois de já ter sido lançada a ARRI 35 IIC, Kubrick a usara para rodar algumas seqüências de Laranja Mecânica... E agora ela filma produções brasileiras e universitárias de baixo ou sem nenhum orçamento!

Olhei a foto daquela ARRI, tão jurássica, e pensei na quantidade de coisas pelas quais ela já passou e de eventos que ela já filmou. E me veio todo o filme na cabeça.








4 comentários:

  1. Caralho.

    E parece que o Sganzerla usou essa também.

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  2. bela sensação de fluxo de tempo/cultura pelos olhos de uma câmera!
    Emoção construída e construtiva de saber-se num fluxo de cultura ao posicionar-se por detrás desse objeto tecnológico humanizado!
    um brinde ao por vir de suas filmagens!

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  3. que barato,taís, você fazendo já sua ponta na história mundial.
    ;)

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  4. ADORO conexões cosmológicas E as luvas do chico!

    arrasa, taís!!!

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